Guia do ciclista

20 de maio de 2022 | Categoria: Road

Três aprendizados do Giro d’Italia 2022

O Giro já está na metade e se você ainda não está acompanhando, seguem aqui alguns aprendizados que já tivemos e incentivos para começar a assistir

Por Breno Bizinoto

VDP quer saber quantas fichas tem

Mathieu Van der Poel parece ter uma estratégia diferente nesse Giro d’Italia. Não é como se ele estivesse tentando vencer a prova, mas parece que repete o feito da grande volta do ano passado, quando correu só a primeira metade do Tour de France e abandonou o resto.

O que está parecendo agora no Giro d’Italia 2022 é que o “Belga/Holandês” está de novo fazendo um simulado para ver como o seu corpo reage nas circunstâncias de um Grand Tour. Três semanas de corrida ainda são um mistério para ele, que vestiu a camisa amarela em memória de seu avô, Raymond Poulidor no ano passado e logo depois abandonou a prova.

Agora ele já fez história e experimentou também a camisa rosa, sem muita pretensão de continuar até o fim. Mas parece que o foco dele vai ser a corrida na França, que começa no dia 1 de julho.

As aparições que ele fez até hoje nesses dois Grand Tours foram incríveis e proporcionaram grandes chegadas, daquelas nunca antes vistas. Pode anotar: VDP está só aquecendo os motores.

O Eritreu que se acidentou fora da pista

Muito se fala sobre o motivo de existirem poucos negros que fizeram sucesso no ciclismo. Os motivos discutidos vão desde causas sociais até as fisiológicas, que alegam tratar-se de uma densidade óssea e também muscular muito maior que os negros tem, deixando as escaladas mais difíceis devido a uma estrutura corporal mais pesada. Não sabemos explicar isso, mas o fato é que 2022 foi um ano histórico, pois um negro ganhou uma etapa de grande volta pela primeira vez. Nem Tour, Vuelta ou Giro, nunca tiveram antes um negro vencendo uma etapa.

Desde o início do Giro d’Italia 2022, Biniam Girmay estava aparecendo na ponta e fazendo pressão em Van der Poel nos sprints. Foi na décima etapa que ele teve um embalador da sua equipe fazendo um ótimo trabalho e o colocando na cara do gol para sprintar com Van der Poel, que não teve forças para acompanhar, mas somente para aplaudir o adversário na chegada.

Mais histórico do que vencer um campeão, é receber o reconhecimento dele ainda em cima da linha de chegada.

Biniam Girmay é natural da Eritreia e fez o seu país ir a loucura ao receber a notícia da sua primeira vitória em uma grande volta. Histórico em todos os sentidos.

É incrível como uma história, seja boa ou ruim, pode terminar de uma maneira catastrófica.

Na comemoração do pódio, Biniam acertou o seu olho esquerdo com uma rolha ao abrir a garrafa de champanhe de comemoração e precisou ser hospitalizado. E por fim, não pode largar no dia seguinte, ficando de fora da corrida.

O próprio Van der Poel também tinha se acidentado com uma rolha no pódio, ainda na primeira etapa. Mas como foi acertado na testa, nada de grave aconteceu.

Repetindo:

Após uma vitória histórica, o cara precisou abandonar por que se machucou com uma rolha no pódio.

É importante a gente aprender aqui a diferença da mentalidade convencional para a mentalidade campeã. O atleta eritreu veio a público no dia seguinte dar a notícia da sua saída da prova. Com um grande sorriso, ele relatou:

“Quando voltei do hospital ontem, pude comemorar um pouco com minha equipe. Estou feliz de novo agora. Fiquei um pouco triste com o que aconteceu com o champanhe, mas quando voltei para o hotel todos estavam felizes, mesmo um pouco preocupados.”

“Infelizmente não vou largar hoje, porque meu olho ainda precisa descansar. Estou ansioso pelo resto da temporada.”

Um campeão sabe que a vida de atleta carrega muitas frustrações. É uma carreira de erros e acertos, onde todo detalhe, dentro e fora da pista fazem a diferença. E nenhum erro ou acidente é motivo para desistir.

Tudo indica que, a Eritreia será muito bem representada por um grande campeão no Tour de France. Boa recuperação Girmay!

O fenômeno Cavendish

Cav é um atleta lendário, já está competindo grandes voltas a muitos anos. Chegou a ficar afastado das pistas por um bom tempo, o que parecia ser uma aposentadoria, mas então voltou meio devagar sem ganhar nada, quando no ano passado, voltou a vencer etapas de sprints e quase foi o campeão da camisa verde no Tour de France.

Esse ano ele continua muito bem e nos ensina que o ciclismo é um esporte ainda mais complexo do que a gente imaginava.

Em sua vitória na terceira etapa ele declarou que nunca foi o atleta mais forte, nem mesmo o mais veloz do pelotão.

“Acho que existem alguns caras que são mais fortes e rápidos, o mais forte e o mais rápido não significa necessariamente o melhor”, disse Cavendish. “Eu nunca fui isso, mas eu venci. Caleb tem as pernas mais rápidas, Fabio é o mais forte, mas isso não significa necessariamente que eles vão ganhar corridas”

“Um sprint é como xadrez sobre rodas, você descobre como ser o mais forte e mais rápido na estrada.”

Um xadrez sobre rodas – é exatamente o que estamos assistindo. Campeões blindados por equipes campeãs, estratégias matemáticas, administração de energia e do combustível de cada atleta, ao longo de 21 dias de corrida. A prova de que tudo isso é muito mais do que simplesmente ser o “atleta mais forte” não é o mais importante, é ver o Cavendish vencer – como um campeão do xadrez e suas estratégias.

O Giro d’Itália termina no dia 29 de maio e ainda tem muito pedal pra rolar por aí! Não deixe de acompanhar essa disputa! Saiba mais sobre a Sentec.

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